Todo pai e toda mãe, em algum momento, se pega comparando o filho com outras crianças da mesma idade. Na maioria das vezes é só curiosidade. Mas às vezes essa comparação esconde uma pergunta mais séria: "será que está tudo bem com o desenvolvimento dele?"
Essa dúvida é mais comum do que parece — e mais importante do que muita gente imagina. Segundo o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), aproximadamente 1 em cada 6 crianças apresenta algum atraso, transtorno ou deficiência no desenvolvimento. E o dado que mais chama atenção não é esse: é que, mesmo com esse número, apenas 19% das crianças recebem, ao mesmo tempo, acompanhamento e triagem formal do desenvolvimento nas consultas de rotina, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde Infantil dos EUA (NSCH 2016).
Ou seja: o problema raramente é a criança não ter chance de se desenvolver bem. O problema é que sinais importantes passam despercebidos — não por falta de cuidado da família, mas porque ninguém aponta exatamente o que observar.
O que observar em cada área do desenvolvimento
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em parceria com o CDC, organiza o desenvolvimento infantil em quatro grandes áreas que devem ser observadas em conjunto — nunca isoladamente. Um "atraso" isolado em uma única habilidade, num único momento, quase sempre é normal. O que pede atenção é um padrão que se repete:
- Linguagem e comunicação: a criança não balbucia, não aponta para o que quer, não forma frases esperadas para a idade, ou parece não reagir quando é chamada pelo nome.
- Motor (grosso e fino): atraso para sentar, engatinhar, andar, subir escadas, ou dificuldade perceptível para segurar objetos pequenos, segurar o lápis ou usar talheres.
- Socioemocional: pouco contato visual, dificuldade para brincar de faz-de-conta, resistência muito intensa a mudanças de rotina, ou dificuldade para interagir com outras crianças.
- Cognitivo: dificuldade para resolver quebra-cabeças simples, seguir instruções de duas etapas, ou entender rotinas básicas do dia a dia esperadas para a faixa etária.
Um ponto importante Marcos do desenvolvimento são referências, não sentenças. O próprio CDC reforça que seus checklists servem para orientar conversas entre famílias e profissionais — não são, isoladamente, ferramentas de diagnóstico. A recomendação é sempre a mesma: na dúvida, converse com um profissional de confiança antes de tirar conclusões sozinho.
Por que agir cedo muda o resultado
A Academia Americana de Pediatria (AAP) recomenda que toda criança passe por triagem formal do desenvolvimento aos 9, 18 e 30 meses de vida, com uma triagem específica para sinais de transtorno do espectro autista aos 18 e 24 meses — independente de haver ou não uma queixa prévia da família (Lipkin & Macias, Pediatrics, 2020). A lógica por trás disso é simples: os primeiros cinco anos de vida concentram o período de maior plasticidade neurológica do ser humano, conforme reforça a própria Sociedade Brasileira de Pediatria em sua Cartilha de Desenvolvimento. É quando o cérebro forma conexões com mais velocidade — e também quando intervenções terapêuticas produzem os melhores resultados.
Pesquisas citadas pelo CDC mostram ainda que crianças acompanhadas com monitoramento contínuo e triagem formal combinados têm mais chances de conseguir acesso a intervenção precoce do que aquelas que passam por apenas um dos dois processos isoladamente (Barger et al., 2018). Na prática, isso significa que esperar "para ver se passa" tende a custar um tempo que, nessa fase da vida, rende mais resultado do que em qualquer outra.
Por que uma avaliação multiprofissional, e não isolada
Um dos erros mais comuns é buscar apenas um profissional — geralmente o que trata o sintoma mais visível — quando o desenvolvimento infantil é, por natureza, interligado. Uma dificuldade de fala pode ter raiz auditiva, motora, sensorial ou socioemocional. Um atraso motor pode estar relacionado a aspectos neurológicos que também afetam a linguagem. Por isso, a Caderneta da Criança do Ministério da Saúde e as diretrizes da SBP recomendam que a avaliação, quando indicada, envolva diferentes especialidades observando a criança sob ângulos diferentes — psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, neuropediatria, entre outras conforme o caso.
É exatamente esse o papel de uma avaliação multiprofissional: reunir esses olhares num só diagnóstico, evitando que a família precise "descobrir sozinha" com qual especialista começar.
Notou algum desses sinais no seu filho ou filha?
Falar com a equipe no WhatsAppComo funciona a avaliação na Casa Ludotê
Na Casa Ludotê, a avaliação multiprofissional reúne diferentes especialistas em torno de um único objetivo: entender a criança por completo antes de qualquer indicação terapêutica. O processo começa com uma escuta detalhada da família, passa pela observação clínica de cada área do desenvolvimento e termina com um plano claro — seja ele de acompanhamento, estimulação ou encaminhamento para terapias específicas.
Se você chegou até aqui reconhecendo algum desses sinais, o passo mais importante não é se cobrar por não ter percebido antes. É agir a partir de agora.
Fontes consultadas
- CDC — Centers for Disease Control and Prevention. "Learn the Signs. Act Early." Programa de monitoramento e triagem do desenvolvimento infantil (2 meses a 5 anos).
- Lipkin PH, Macias MM; Council on Children with Disabilities, Section on Developmental and Behavioral Pediatrics. "Promoting Optimal Development: Identifying Infants and Young Children With Developmental Disorders Through Developmental Surveillance and Screening." Pediatrics, 2020;145(1):e20193449.
- Barger et al., 2018 — sobre o efeito combinado de monitoramento e triagem no acesso à intervenção precoce, citado pelo CDC.
- Hirai et al., 2018 — National Survey of Children's Health (2016), sobre a proporção de crianças que recebem monitoramento e triagem combinados.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em parceria com o CDC — "Cartilha de Desenvolvimento: 2 meses a 5 anos", tradução e adaptação para o português (2024).
- Ministério da Saúde do Brasil — Caderneta de Saúde da Criança, instrumento de acompanhamento do desenvolvimento infantil na atenção básica.